Ao lembrar de minhas primeiras experiências de leitura revejo a figura de minha
mãe. Ela não gostava que eu praticasse a leitura e implicava dizendo que aquilo me atrapalhava, uma
vez que deixava de ajudá-la nos afazeres de casa, uma referência ao “habitus”,
termo estudado por Pierre Bourdieu (BORDIEU apud por Thiry-Cherques, 2006). Para
o autor, “habitus” consiste em modos de apreender, de ponderar e de avaliar o
mundo, os quais permitem acomodar ou conformar nossa forma de atuar, tanto
corporal como materialmente. É como se fosse um princípio de um conhecimento
sem consciência, de um conjunto de atitudes sem intenção, funcionando como um
plano de ação, percepção e reflexão que automatiza as escolhas e as atitudes em
determinadas situações, fazendo pouco uso de estimativas e de ponderações. São
ações oriundas do sistema em que a pessoa está inserida, sendo ela, a pessoa, a
materialização decorrente da internalização ou incorporação de uma estrutura
social extremamente profunda (BORDIEU apud por Thiry-Cherques, 2006)
Dessa
forma, as atitudes de minha mãe nada mais eram que a materialização de um sistema
conhecido e incorporado por ela e que na sua visão seria também o meu futuro,
por isso minhas leituras, seriam para ela simplesmente perda de tempo. Apesar,
disso eu não desistia de minhas constantes leituras, inclusive com apenas onze
anos de idade lembro-me, dentre outros, do livro “Fogo Morto” de José Lins do
Rego, que apesar de ser bem grosso eu o devorei em poucos dias. Sentia-me
compadecida com o sofrimento do Capitão Vitorino através de sua preocupação com
os desvalidos e com o destino trágico do Mestre José Amaro. Sem falar no
enlouquecimento de sua filha, a qual lhe aplicava tamanhas surras na intenção
de curá-la. Era para mim um mundo que se correlacionava ao meu no que pese as
desigualdades apresentadas. Soma-se a essas outras leituras, como a do filósofo
Arthur Schopenhauer. Havia uma coleção dele em minha casa e talvez por me
identificar com sua visão pessimista, a qual se fazia presente na época em
razão do contexto em que me encontrava. Como eu não parava de ler minha
mãe, muitas vezes, chegou a queimar os livros que encontrava e aqueles que eu mais gostava.
Assim, tinha sempre que procurar esconderijos para eles;tocos de árvores, debaixo de algum móvel que existia dentro de casa. Creio que isso me
instigava mais a praticar a leitura. Ler cada obra se tornou para mim um grande
desafio e até hoje o hábito da leitura é ainda muito forte em mim.
Muito madura suas leitura iniciais para tão pouca idade!!!
ResponderExcluirPois é, Rossana. Eram os livros que meu pai lia e ia me repassando. Lógico que outros fatores contribuíram para isso; como o fato de não ter televisão em casa, rádio ou qualquer outro aparelho similar. Os livros eram o colorido que preenchia aquele meu mundo tão solitário...
ResponderExcluirPubliquei meu texto, deem um lida e comentem.
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